“O Brasil é um país de carinho” e reticências

A vulnerabilidade em que se encontram algumas pessoas além de suas fronteiras reuniu um time de 20 voluntários para atendimentos médicos no norte do país.

“Para nós nunca existiu estrada ruim, comida apimentada demais, cachaça que não valesse a pena ou preguiça. Enfiávamos os dois pés na lama torcendo para atolar.” Frase da Eliane Brum, que legenda nossa equipe e nossas expedições. E essa não foi diferente…

“Ao olhar a obstetra Tenente Ana calada e com olhar fixo, percebi na hora que não era um trabalho de parto “normal”, onde apenas a natureza e os extintos da mulher se sobreporiam a qualquer obstáculo da falta de recursos hospitalares e da remota localização geográfica. O bebê não estava com a cabeça coroando para chegar ao mundo, ele simplesmente estava com um pezinho passando a frente de tudo e anunciando um parto difícil e perigoso. E não poderia ser só isso. Uma pré-eclâmpsia acompanhava a situação. Quando ela pediu à ambulância do exército para remover a paciente para a capital, distância cronometrada  em 3h, tendo lá no fundo a esperança que esse bebê esperaria mais um pouco, olhou novamente para mim, que não sou obstetra e nem neonatologista, e falou “Você vai comigo. “Fiz todo o possível aqui e esse parto na estrada precisa das nossas quatro mãos.” De repente percebi que não mais importava a minha especialidade, importava o trabalho em equipe e a confiança que teríamos que ter uma na outra em menos de 3h que havíamos nos conhecido. Na estrada fomos concentradas, sem falar muito, com os olhos fixos da futura mãe, cheios de coragem e lágrimas.  Sargento Bruno dirigiu com muito cuidado, mas de forma que essas 3 horas encolhessem e que a tempestade não nos tirasse da pista. Dizem que o que emanamos ao universo ele manda de volta.  Acho que o silêncio, a concentração e as orações acalmaram aquele útero, mesmo com a bolsa rompendo no meio do caminho.

Chegamos à Boa Vista, cesariana com sucesso, choro ecoou na sala de cirurgia, um brasileirinho anunciou que a Operação Acolhida faz a diferença entre viver ou não.

O relato da cirurgiã e endoscopista Suellen Lima nos diz um pouco sobre os intensos dias vividos em Roraima. Nossa equipe, unida à equipe do Exército Brasileiro atendeu nove abrigos espalhados pela cidade onde estão acolhidas mais de três mil pessoas.

 

 

 

O Brasil recebeu 17,8 mil pedidos de refúgio venezuelano em 2017. Diante da fome e pobreza extrema, em uma tentativa de escapar da escassez, percorrem quilômetros a pé, vazios de seu próprio território.

Diante disso, o Instituto Dharma montou uma equipe com seis dentistas, infectologista, ginecologista, cirurgiã entre outros tantos profissionais. Vinte pessoas desconhecidas de morada dos vários cantos do Brasil se encontraram em um vôo da FAB com destino a Boa Vista, Roraima, para somar forças à equipe da Operação Acolhida.

Prestamos assistência médica a todas as pessoas viventes em situação de vulnerabilidade. Muitas com diarréia e problema respiratórios. Nos desdobramos para o rodízio de profissionais acontecer em todos os períodos e os especialistas visitarem todos os abrigos.

Em Boa Vista conhecemos a Larissa, enfermeira que toma conta de uma invasão com mais de duzentos moradores venezuelanos. Crianças e adultos doentes. Nossa equipe foi até lá depois de todos os atendimentos do dia e em um consultório improvisado com três mesas e seis cadeiras e iluminação feita por lanternas de celulares, atendemos mais de 60 pessoas entre crianças e idosos.

Duas horas de uma estrada amazônica hipnotizante. Uma beleza e brilho que não deixou nem os mais cansados cochilarem. Nem cinco minutinhos. Lá estávamos nós em Pacaraima, um pedacinho de chão quase sempre molhado e vozes visitantes. Cidade brasileira que dá a mão a Santa Helena, cidade venezuelana.

Ao amanhecer, o sol discreto podia iluminar os chegantes descalços. Suas malas cheias de esperança formavam fila no limite imaginário chamado fronteira… Tamanha indigência tem gosto de café requentado aos olhos de quem assiste. A eles, só se pode esperar…

A espera anda a passos lentos. Os dias passam sem pressa nem rumo. Eles sentam e assistem. Segurando entre as mãos as suas cabeças ou os meninos pequenos que ainda não tem idade para caminhar seus passinhos descalços… A falta é abundante aqui.

A barriga crescida das crianças mostra o abandono do qual vieram. Mas em suas fantasias, pincel e tinta, colore o dia. Bolas vazias logo se enchem para um jogo – ao qual aprendi as regras rapidinho – num terreno irregular. Os fantoches da pedagoga Ana Claudia se transformaram em histórias animadas (ou eles que mudaram, por um dia, aquelas histórias) e ganharam aplausos e riso.  As câmeras fotográficas divertem os grandes e os pequenos e entreter-se em fotografias faz as horas doídas passarem em anestesia…

Entramos no ônibus de volta para Boa Vista com marcas permanentes.

Nas mais de dez horas de vôo de volta pra casa todos já se entendiam nos gestos. Os sentimentos estavam exaustos e os corações sorriam de olhos fechados, trazendo a lembrança dos cenários vividos naquelas terras. Terras onde sonhos se encerram e recomeçam.

“O Brasil é um país de carinho”, a frase que dá título a essa matéria deslizou dos lábios de uma senhora de etnia Warao moradora no abrigo Janokoida.  Enquanto de nós, deslizavam lágrimas, essa fazedora de artesanato apresenta seu trabalho durante o tempo que agradece a hospitalidade… Gentileza essa que fica guardada dentro das reticências do Brasil, um lugar que te faz pobre quando não te deixa mais escolhas…

Conflitam em mim tristeza e deleite pelos dias corridos no topo do Brasil. Foi a vivência mais devoradora da qual minha alma percorreu. Um dia me desejaram uma vida sem fronteiras. Não podiam ter me desejado nada melhor.

Fui transformada e preciso voltar para também poder transformar e quem sabe, embelezar futuros.

 

Texto: Marlise Carvalho

Fotos

Marlise Carvalho

Lívia Hadanny Brown

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By Karina / Administrator on jul 20, 2018

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