Missão Extrema: “Ossos do Ofício”

Em “Ossos do Ofício”, chego em uma ilha peruana semi-desértica, habitada por nada menos que meio milhão de aves marinhas. Lá, entro no mundo de centenas de trabalhadores que vêm das cordilheiras do país para extrair uma riqueza nada comum: fezes de pássaro, normalmente conhecida como ‘guano’.

O clima é seco, a umidade é baixa, o trabalho é duro. Itens básicos – como água, comida e luz – são escassos e racionados. O cheiro é intenso, descrito como uma mistura de esgoto e ácido amoníaco. Apenas os homens com a melhor condição física são bravos o bastante para realizar o trabalho.

Minha viagem tem início em Paracas, no Peru. São aproximadamente duas horas mar adentro até alcançar a Ilha Chincha Norte. De longe, vejo uma nuvem negra de pássaros e seu barulho incessante e ensurdecedor me dá as boas vindas.

Chego ao território deles, minha casa pelos próximos sete dias. Meu barco está lotado de trabalhadores que migram para a ilha desde a ‘Cordillera Blanca’ e que enxergam no ‘guano’ – um valioso fertilizante natural comercializado mundialmente – uma maneira de ganhar mais que o dobro do salário mínimo do país.

Na chegada, cada um do grupo recebe um kit sobrevivência, que consiste em um fino colchão, uma caneca, um rolo de papel higiênico, uma barra de sabão e pasta de dente. Assim como meus colegas, Karina trago comigo uma pequena mochila com uma troca de roupas – isso é tudo.

Meus dias começam cedo. Às 4:30 da manhã os trabalhadores devem estar de pé e prontos. Eles trabalham em pares e agora preciso provar que consigo cavar as montanhas de guano, duras e consistentes, apenas com um uma picareta e uma pá. Produtividade aqui é o lema. Esses trabalhadores têm apenas alguns meses para atingir a meta de 1200 toneladas do cobiçado fertilizante, para garantir o salário prometido. Eles trabalham sem descanso.

Nesta missão, troco de posição com os membros de meu grupo, primeiramente no papel de cavadora de guano, as vezes sustentada apenas por uma corda nas íngremes colinas que dão para o oceano, e as vezes no papel de ‘corredora’, responsável por carregar aproximadamente 120 sacos de até 50kg através das ladeiras escorregadias da ilha. Um barco de carga deve chegar em pouco tempo para deslocar o material precioso para o continente, e tenho que ensacar sua produção em pilhas de 16 sacos, encaixá-los no sistema de ganchos localizado na beira da colina e deslizá-los até o navio.

O maior desafio foi lidar com o desconfortável pó do guano que entrava em minhas narinas, fezes de pássaro caindo nos meus cabelos e roupas e alguns carrapatos que grudaram na minha pele. E pra ajudar, o único balde de água que recebia por dia tinha que ser dividido entre enxaguar meu corpo e lavar minhas roupas.

Os trabalhadores comem duas vezes ao dia, uma refeição que consiste principalmente em carboidrato e frango. Tive que comer como eles comem, sem receber nenhum tratamento especial. A missão extrema foi sentir vontade de comer uma refeição completa enquanto estava cercada por fezes de pássaro!!!

Mas no fim, novamente consegui denunciar quem são os verdadeiros heróis: trabalhadores comuns, desconhecidos, cheios de força e dignidade, que têm um dos trabalhos mais duros do mundo.

“Ossos do Ofício” reprisa no sábado, dia 16/05 às 10:30 da manhã no Discovery Brasil. Não percam! 😉

Missão Extrema com Karina Oliani
“Ossos do Ofício, dia 10/05 às 21:30h no Discovery”

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By Karina / Administrator on maio 14, 2015

Comments (3)

  • Ana costa

    Adorei este episodio e desconhecia completamente esta profissão.Nós do mundo urbano temos tanta coisa a aprender.Sobre necessidades, trabalho, honra e companheirismo. Valeu Karina!Estamos sendo aprendendo neste mundo tão diversificado.

  • Alessandro

    Há muito tempo ouço dizer sobre a extração de guano, mas é a primeira vez que vejo o processo.
    Insano!
    Parabéns pela reportagem e principalmente pelo trabalho!

  • Muito interessante o comentário. Mas meu problema são essas dores. Quando enfrentei uma crise de lombalgia, o médico me indicou desse colchão magnético . Alguém daqui já usou? Parece que trata até insonia.

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