Caçadora de tornados (por alguns dias)

Lembra do filme Twister? Provavelmente veio na sua mente a histórica imagem da vaca voando. Aquilo não é um absurdo do cinema, pode realmente acontecer. Depois desse filme clássico dos anos 90, botei na ideia que um dia eu caçaria tornados em algum lugar do mundo. 2018 chegou e agora posso dizer que marquei com “OK” essa minha espécie de “Lista de Coisas que quero fazer antes de morrer”.

Uni o útil ao agradável ao embarcar para os Estados Unidos no mês passado para uma temporada de dez dias onde percorri oito estados americano a bordo de um Volvo lindo com uma missão: caçar tornados.

 

 

Queria tentar entender se um tornado é realmente tudo aquilo que o filme mostra. Não é. É muito mais fascinante e grandioso que qualquer técnico de efeitos especiais no cinema seria capaz de fazer.

Resolvi unir o útil ao agradável e registrar pra sempre essa minha aventura inédita na minha vida. Com a Pitaya Filmes estou produzindo uma série nova em que mostraremos manifestações máximas dos quatro elementos da natureza: fogo, terra, ar e água. Um tornado é o auge da força do elemento ar e foi esse o tema de um dos episódios que gravei em Oklahoma, Texas, Wyoming, Nebraska, Colorado e Novo México.

 

 

Eu garanto para vocês que não tem nada no mundo que assusta e  ao mesmo tempo  encanta mais do que um tornado. É fascinante ver de perto como uma “simples” formação natural do ar é capaz de mostrar um complexo e absurdo poder da natureza.

Percorremos mais de 2.000 milhas (3.218,68 km) atrás das tempestades mais severas da região conhecida como Vale dos Tornados, sempre checando os aplicativos de previsão do tempo e outras funcionalidades que são indispensáveis para quem embarca em uma dessas. Com essa tecnologia em mãos, íamos direto para lugares onde haveria maiores chances de tempestades serem formadas.

 

 

Quando você decide caçar tornados, não se vai apenas atrás deles propriamente dito. A busca principal é por tempestades, o que nos faz verdadeiros “Storm chasers” e, na sequência, talvez um “Tornado Hunter”. Mas de tudo o que você mais faz é dirigir. Melhor ter um carro confortável e confiável por perto.

 

Vou dizer para vocês que as tempestades são lindíssimas! A gente pegou formações e nuvens super-raras chamadas “mammatus”, porque lembram mamas. A formação das nuvens mammatus na maioria das vezes está associada à formação de nuvens do tipo cumulonimbus Vi incontáveis lightning nex, que são aqueles relâmpagos em sequência. Medo e fascínio andando juntos de mãos dadas.

 

 

As paisagens pelas estradas são um capítulo à parte. A maior parte das vezes ficávamos percorrendo o meio do mais absoluto nada. Nessa ausência às vezes encontrávamos tudo o que queríamos. Minha rotina era acordar cada manha num hotel diferente, comer algo e sair dirigindo em direção a região com a maior probabilidade de tempestade. E é no final da tarde que é o período do dia que há maior risco de tornados.

Quando eles se formam, o céu fica fechado, começa a cair granizo. Esses podem variar de pequenas bolinhas de gelo de 0,5 cm de diâmetro até bolas de pingue-pongue. Fiquei bem apreensiva quando ficamos presos no meio de um “haze” que parecia que ia amassar o carro. Mas apesar de termos sido atingidos algumas vezes, nosso Volvo mostrou sua qualidade e saiu intacto. Sobre a forca do vento, nem preciso comentar.

 

 

Parece “divertido”, mas também tem um lado tenso. Nos Estados Unidos há serviços de notificação no celular que alertam possíveis aproximações de tornados. Os avisos também são emitidos no rádio e na televisão. Nessas comunicações são feitas recomendações do tipo “saiam daí”. Chega a ser contraditório ver uma cena de todo mundo evacuando uma comunidade enquanto “malucos” como a gente vai em direção oposta às orientações oficiais.

Fui com o objetivo de caçar tornados, não seria lógico eu fugir deles. É uma adrenalina absurda estar no meio daquele estado de calamidade e uma sirene ecoando para avisar do perigo que se aproxima. Todos os animais se agrupam de modo a se proteger. É uma cena que chega a ser apocalíptica.

 

 

Essa experiência é do tipo “não façam isso em casa” ou “vou fazer porque vi a Karina Oliani fazendo”. É preciso uma preparação muito séria. Eu estava acompanhada no carro por guias extremamente experientes neste tipo segmentado de atividade a tal ponto de serem considerados um dos melhores caçadores de tornados do mundo.

 

Quando você chega em uma tempestade, é de fundamental importância estar sob a escolta de alguém realmente gabaritado, extremamente vigilante com tudo, que saiba usar a tecnologia ao seu favor e que não perca a serenidade, calma e paciência nas raras situações que algo pode dar errado.

Vimos a formação de uma supercélula, um tipo de tempestade caracterizada pela presença de um mesociclone,  uma corrente de ar ascendente girando no interior da nuvem.

 

 

As supercélulas são geralmente as menos comuns, mas também formam as tempestades mais severas. Vimos uma supercélula  de alta precipitação, ou seja, a condição ideal para a formação de um tornado. A emoção era enorme. Meu coração disparou.

Esses sistemas estão frequentemente isolados de outras tempestades, causam chuvas muito volumosas, produzem muitos raios e ventania.

 

Um dos momentos mais tensos foi quando um caminhão na nossa frente simplesmente tombou pela força do vento.

 

Eu aprendi muito sobre tempestades e meteorologia com o Nick, com o Alec, mas fiquei ainda mais impressionada que eles sabiam direitinho quando se pode se aproximar, afastar, onde é seguro ficar, até sabiam o trajeto do tornado como se fosse um velho conhecido que sabe prever o movimento de um velho amigo pela repetição de hábitos.

 

 

O que aprendi pra minha vida nisso tudo, ainda estou refletindo. Um caçador de tempestades precisa saber lidar com frustração. Assisti o Nick e outros meteorologistas tomarem decisões diárias de acordo com o que ha de mais moderno, tecnológico em previsão de tempo. Mas nunca era fácil. Geralmente ha varias opções e saber qual delas te levar ao seu tornado requer, principalmente, experiência. Mas persistência e saber reconhecer e respeitar a força da natureza também são qualidades fundamentais.

 

As analogias que podemos fazer da vida com a natureza sempre me fascinam. Pessoalmente, enquanto enfrentava um dos “maiores furacões” de saúde que já tive na vida, resolvi sair de casa pra caçá-los, espontaneamente.

É do nosso instinto natural querer fugir de tornados e problemas de nossas vidas. Mas tem vezes que encará-los é a melhor forma de evoluirmos e de sairmos fortalecidos.

 

E a tão famigerada vaca do Twister, lamento: nem sinal. Perguntei ao Nick e ao Alec que caçam tornados profissionalmente se eles já viram alguma vaca voando nesses 22 anos de storm chasing, mas também não rolou.

 

Fotos: Marcelo Rabelo e Karina Oliani

 

Agradecimentos

Volvo Brasil

Volvo USA

Extreme Tornados Tours

Nick Drieschman

Alec Scholten

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By Karina / Administrator on jun 08, 2018

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